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quinta-feira, 9 de abril de 2009

Madalena dos olhos doces, ou o Diogo que eu matei!




A história é do Diogo (nome que sempre quis dar a alguém), rapaz na casa dos trinta (não vou precisar para não dar asas a possíveis analogias) de pele incrivelmente hidratada e morena.

Alto, muito alto (esta descrição depende sempre dos olhos que o vêem), com os maxilares bem marcados e com um olhar que atravessa o além. Ela, a Madalena, via-o assim. Mas mais ainda. A sua cegueira via-o com aura iluminada, sentia o seu perfume como o melhor aroma de sempre, via nos traços marcados da sua cara morena, pintalgada por pontinhas de barba escura, desenhos de beleza.


Ela, a Madalena, estava apaixonada.

Era daquelas mulheres muito ameninadas que ninguém imagina capaz de uma paixão tão violenta.


Madalena tinha longos cabelos indisciplinados da cor do ouro antigo. A sua pele adivinhava tatuagens do tempo, e os seus dentes sorriam brancos. Tinha uns olhos doces. Era a Madalena dos olhos doces.

Quando ela o conheceu, o Estio impunha-se com vontade. Foi numa tarde igual a todas as outras, aquelas que perdemos o tempo de forma consciente e preguiçosa. Ela nem se apercebeu do impacto daquela tarde sufocante, mas as borboletas pela barriga (ou pelo corpo todo) lembram-lhe ainda naquela noite, e depois mais tantas noites.

Madalena planeava os seus dias segundo um eventual encontro fortuito com Diogo. Os dias, que se seguiram àquela tarde, eram todos de vaidade.

Já Diogo não se deixou avisar por borboletas. Era tão desprendido quanto o vento do norte. Não via Madalena antes de dormir, nem tão pouco acordava com ela a sorrir. Diogo, era homem que não estava habituado a sorrir, mas era arlequim em grupos de cafés. Diogo decidira-se por uma aparência rigorosa mas frágil a olho nu.

Entre as várias vezes que se iam cruzando, Diogo e Madalena, o êxtase físico ia-os massacrando.

Chegou o primeiro beijo. Aconteceu depois de várias horas tagareladas numa tarde à beira mar. Tremiam enquanto os lábios de ambos se descobriam cautelosamente. Madalena estava com o coração aos pulos. Os seus olhos estavam mais açucarados que nunca e ardiam em mistério. Diogo sentia-se diferente, resistia incoerentemente às pistas que o seu coração lhe mandava.

Várias estações passaram repetidas.

A paixão ou encantamento daquele primeiro verão quente durou.

E a transformação das borboletas trouxe sentimentos mais suaves e cómodos aos dois.

Diogo e Madalena gostam-se. Mas o amor deles morreu.

Madalena ainda hoje grita por esse amor que jurou para sempre. Diogo matou-o há muito tempo quando se resignava a contemplar o que considerava imutável.

Eram muito iguais. Apesar das características visíveis que os autenticavam, ambos eram uns sedutores. Sofriam desesperadamente pelo grande amor novelesco em que apostaram, enquanto se escondiam em máscaras felizes e se vendiam à boémia traiçoeira.

Diogo que vivia em excessos precoces, agarrado a limitações que não o despertavam, suicidou-se anos mais tarde.

Já Madalena terrivelmente consciente, que passeava por trapézios como por poesias, conteve a sua infelicidade em choros como os de Amália, em versos românticos e em limites neuróticos.

Madalena fez o luto como as mulheres do mar. E só depois morreu, com a esperança já morta, abraçada à consciência, sua inimiga mais duradoura.





Aquela que posso ser.




"No planchar - do not iron - ne pas repasser"150x150cmtécnica mista2009 de Célia Machado


3 comentários:

DomingonoMundo disse...

Afinal não foi morto, mas suicidado. De qualquer maneira persiste na escrita, que é a mais alta morada da perpetuação. E esta particularmente, que faz desconfiar e desejar o reaparecer de Diogo...

abade elias disse...

Não faço a mais pálida ideia... mas seja bem-vinda!

ahnizos disse...

estou sem palavras